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Resistência: sobre ser mulher negra

Na semana da Consciência Negra, entrevistamos nossa ovelha Luciana Tavares, modelo da Ov desde 2013. Em depoimento, Lu contou que cresceu sem televisão em casa, e por esse motivo consumia revistas de moda e beleza que a mãe levava pra casa quando as patroas jogavam fora. Ela conta que sempre teve o sonho de um dia também estar em uma revista, mas já com 14 anos sabia que era diferente por ser muitas vezes excluída e alvo de piadas. Enquanto criança e inocente, não imaginava que isso ocorresse pela cor da sua pele, já que  seus pais também nunca haviam abordado questões raciais até então. A primeira vez em que se deparou com a foto de uma modelo negra, Luciana ficou impressionada pela força em seu olhar, segurança e poder que exaltava. A modelo Rojane Fradique fez seu coração bater mais forte, despertando novamente o sonho. Em 2008, Luciana participou de uma seleção de modelos, e a partir disso começou a se inscrever em concursos de beleza, em sua maioria voltados para a beleza negra. Ganhou o Miss Curitiba Afro 2012, Miss Paraná Afro 2012, Segundo lugar Miss Pinhais 2012, Garota Primavera Pinhais 2013, Rainha dos Palmares 2013 e Beleza Negra Paraná 2013. Confira as perguntas que o Blog da Ov fez pra ela:

 

– No Dia da Consciência Negra, podemos comemorar? Quais evoluções você tem sentido na sociedade sobre o tema?

“Esse é um dia de respeito à história e a memória de tantas pessoas que sofreram, lutaram e morreram  para serem lembradas. Acho que é motivo de comemorar, por mais que considere o fato de não termos um feriado falta de respeito, já que acredito que, mais do que um dia de festa e comemoração, é uma forma de trazer consciência sobre tudo o que aconteceu e ainda acontece. Gostaria que todas as pessoas, independentemente da cor, pudessem nesse dia pensar, estudar e meditar de forma profunda sobre a sua importância. Ainda não estamos libertos, e é uma luta diária, mas eu vejo um despertar de pessoas negras e brancas que falam muito mais sobre o assunto. Temos que conscientizar as pessoas, representar e ser representados, e é nosso dever enquanto negros  de não apenas ser, mas de despertar o maior número de mentes possíveis. É um passo cansativo pra gente, mas necessário. A industria despertou pra isso também, num sentido estético e agora nós estamos na moda. Há um tempo atrás ninguém falava sobre ou defendia a gente, tínhamos que buscar por conta. Eu mesma buscava e não encontrava referencias, era tudo muito misterioso e ninguém explicava direito o que foi a escravidão. Saber disso importa na construção social de uma pessoa, e se ver representada  muda como você se coloca no mundo. Eu cresci sem essa base e sem saber quem eu era, assim como tantos outros negros. A evolução que eu vejo está nesse sentido: as pessoas estão cansadas, estão falando, militando e exigindo seus direitos, e isso é lindo de ver. Acho que é a nova era de cobrança de direitos, de existir, o despertar geral. Eu estou muito feliz de hoje conseguir olhar pra trás e ver o inicio dessa revolução, do meu despertar enquanto mulher negra, do meu empoderamento e os níveis que tem atingido. De tanto a gente cobrar, pedir, insistir e reivindicar, a sociedade está nos dando, num nível muito lento ainda, mas já sabem que a gente existe. E exige.”

 

Luciana Tavares por Pamela Oms para a Ov em 2013

 

– Quais atitudes racistas que você considera ainda frequentes no dia a dia de quem vive no Brasil?

“As estatísticas falam por si e os fatos estão aí pra quem está disposto a ver. Penso que o jovem negro é o que mais morre, por uma questão histórica. Negros são a maioria na periferia, e por falta de oportunidades, eles são a linha de frente da bala e da policia. É a mulher negra que tem o seu corpo desvalorizado, e não é a toa que existe o recorte racial dentro do próprio feminismo. Brancos e negros crescem sem perceber valor na vida de um negro por pequenas atitudes, que talvez estejam no inconsciente de pessoas que praticam racismo, mas que em sua maioria não se consideram racistas. Essas são as mesmas pessoas que dizem que “até tem um amigo negro”, mas em sua rotina compartilham de pensamentos intolerantes e que nos afetam, fazem comentários, ignoram as mortes e a violência generalizada, assim como a falta de representatividade e a falta de oportunidades dadas a nós. Lutamos todos os dias pra que leis que nos protegem não desapareçam, pra que nossas questões não sejam tratadas como mimimi ou fake news, e pra que nossa fala não seja desvalorizada. O povo negro é a maioria na população brasileira, e por isso é um absurdo que a gente seja marginalizado e não possa estar em muitos espaços. É somente com essa ocupação que as coisas vão começar a mudar, e as pessoas não precisaram mais pensar que o negro não tem valor, ou que não é capaz.”

 

Luciana Tavares por Pamela Oms para a Ov em 2014

 

“Em relação a todos os tipos de atitudes racistas, acredito que dificilmente as pessoas vão se conscientizar como um todo, isso pra mim é um sonho. Como penso muito no individual, creio que cada um deve buscar ser melhor, ter mais empatia, amor, tolerância e evoluir como ser; Ter suas próprias buscas e criar novas perspectivas de vida e do seu fim, ser mais respeitoso e educado. Depois, vem a necessidade de olhar para o outro, respeitar os mais velhos, os que já se foram e a história. Falando de Brasil, vejo a necessidade de um despertar dessa bolha de alienação criada por um sistema corrupto e injusto, falido e atrasado. Temos que olhar pra frente, pra pessoas que estão crescendo, sendo luz, transformando vidas e nações através do amor. As pessoas estão doentes e precisam ser curadas de todo o mal, até mesmo do racismo que é sim, uma doença e não um problema meu por ser negra, mas de pessoas intolerantes e más que passam isso para os seus filhos. Racismo é um mal da sociedade que tem que ser tratado, e isso tem sido feito de forma lenta porque algumas pessoas estão sim dispostas a entender, mudar e se curar, mas outras não. A gente precisa trabalhar diariamente por sistemas de igualdade e falar mais sobre isso, o mundo inteiro está falando sobre a falta de respeito com todas as minorias.”

[Se a gente não sofre, precisa pelo menos ter empatia pelo próximo e pela dor do outro com mais profundidade pra quando você ver algo acontecendo, tenha forças para reagir e agir junto com a pessoa que está sofrendo. Desejo que a gente consiga estar unido, olhar pro lado e ver que tem gente somando e sentindo a mesma dor, se preocupando. Esse processo existe, mas ainda está devagar. Vejo pessoas questionando e pensando que é uma movimentação desnecessária, mas que não é. Se você não sofre, tenha compaixão pra entender a fala do outro e respeitar. Se tem alguém falando, reclamando e pedindo é porque há necessidade, ninguém gosta de sofrer. A gente tem que fazer o auto análise do que praticamos: se eu não sou racista, eu contrato um fotógrafo negro? Contrato empreendedores ou funcionários negros? Eu comprimento uma empregada? Uma pessoa que limpa o banheiro do shopping? Um zelador? Um porteiro? Eu reconheço e realmente valorizo essas pessoas? Realmente me importo com a vida delas? Até que ponto? Precisamos sair pro mundo de cabeça erguida, precisamos não ser alvo, e que nossas crianças negras tenham mais oportunidade, esperança e educação, e que a verdade da nossa história seja revelada a nós pra que a gente não tente resolver as doença das pessoas que vivem na intolerância e no ódio, já que nunca vamos encontrar o motivo pra que essas pessoas sejam assim, mas sim nos fortalecermos, falarmos sobre a importância da nossa luta e da nossa auto valorização, do resgate da história e fazer valer a luta e o sangue dos que se foram.]

 

Luciana Tavares por por Lex Kozlik no desfile da Ovelha Negra no Id Fashion 2015

 

– O que é ser, hoje, uma mulher negra no Brasil?

“É ser resistência todos os dias, é carregar um fardo grande que parece que a gente não vai aguentar. A gente tem que sempre buscar estar bem e firme, não podemos dar chance pra tristeza, pra depressão e pra esses sentimentos que todo mundo se permite sentir. Ser mulher negra no Brasil é luta, é garra, é ser forte, e você não tem chance de não ser, já nasce com esse dever, mesmo não sabendo. Eu não imaginava que ia crescer e teria que ser forte por mim mesma e pelo meu filho, pra me manter viva. As mulheres no geral no Brasil são guerreiras mesmo não sabendo que tem poder, e mulher negra pra mim é rainha, é majestade, é muito mais do que estereótipos a que somos associadas. Vendo nossa história e tudo o que a gente descende, percebo que quando a gente tomar consciência dessa força, as mulheres vão dominar o mundo de uma forma respeitosa. Precisamos nos fortalecer nessa corrente, nos permitirmos ajudar e entender uma a outra, nos perdoarmos, nos reconhecermos, nos erguermos, e nos colocarmos na sociedade tomando posse do nosso lugar, que não é pouco. Mulher é o feminino e tudo de lindo e sagrado que existe, de extraordinário e de poder indefinível.”

 

Luciana Tavares por por Daniel Sorrentino no desfile da Ovelha Negra no Id Fashion 2016

 

 – Como você se vê representada hoje?

“A indústria está despertando pra nossa representação, estão vendo essa necessidade em produtos de beleza, filmes, apresentadores, comerciais, e tudo o que reflete a sociedade. O retorno financeiro é uma preocupação porque hoje existe essa demanda para ser atendida, mas não podemos deixar de olhar para trás e respeitar as pessoas que vieram antes e lutaram pra que isso fosse possível, já que todo esse movimento é sim uma continuidade. É um sinal de que nossas reivindicações estão sendo bem colocadas, e pessoas de grande influência no mundo estão falando sobre isso na música e no meio artístico: atores e atrizes que tem poder em suas vozes estão conseguindo a atenção de mais pessoas para o assunto. Todo negro precisa buscar se fortalecer, porque onde menos se espera tem alguém se espelhando em nós. Hoje o negro é protagonista, herói, a mulher negra tem espaço no cenário musical. Resistimos por conta de muita luta, e até a representatividade da periferia já existe por conta de um trabalho de formiguinha que aconteceu até hoje. Quando me coloquei na sociedade como mulher negra, não tinha essas referências e não me sentia representada da forma que vejo acontecer. Vejo luta das pessoas negras em busca de reconhecimento, e vejo, do outro lado, a movimentação pela inclusão que deve ser valorizada de pessoas estão de fato se esforçando ao máximo e também das que estão sendo obrigadas, mas de uma forma ou de outra, estamos colhendo resultados. Alguns vão dizer que já está tudo igual, que há questões desnecessárias como as cotas, a própria busca por inclusão e por mais oportunidades, mas todos os dias precisamos fazer essas pessoas verem outro lado e se situarem, darem importância a nossa luta.”

 

Luciana Tavares por Fernanda Pompermayer para a Ov em 2017

 

Desde que iniciou no mundo da moda, trabalhando entre editoriais, desfiles, campanhas e eventos, Luciana se via como a única negra, e atribuía esse fato a um cumprimento de uma cota ou obrigação. Ela enfrentou ainda questões relativas ao tamanho do seu cabelo e a falta de opções de base em tons negros, o que a fez passar a perceber a complexidade do assunto. Sua inquietude a levou a concorrer e vencer o título de Miss Pinhais em 2015, o que ela acredita ter trazido mais visibilidade e força para seu discurso e busca por uma transformação no mundo miss através da quebra de padrões. Por fim, deixamos o depoimento pessoal de Luciana sobre esse período e suas conquistas:

“Dediquei-me muito para entrar no padrão corporal exigido na etapa do concurso, me entreguei de corpo e alma para honrar meu título; Tenho um carinho muito especial por esse tempo, e por ter quebrado um jejum de anos sem ter negras vencendo concursos de beleza fui convidada pela querida Deise Nunes, a primeira mulher negra a vencer o concurso Miss Brasil em 1986, para o FLINKSAMPA 2015, onde tive a honra de estar ao lado de grandes nomes negros do Brasil, e ter um espaço de fala; Também participei do Troféu Raça Negra, experiência me deu muita força, mas logo chegou o Miss Paraná 2016, onde contei com apoio de muitas pessoas incríveis para estar preparada e fui: com minhas causas, lutas diárias, dores, alegrias, esperanças e sonhos. Mais que um ato estético, era também um ato político: queria ser ouvida, gostaria que crianças sonhadoras, como eu fui, vissem o que era possível! No processo do concurso, me vi só, percebi que não havia um real interesse sobre a beleza negra, e que era tudo muito superficial, assuntos rasos, e me vi desrespeitada em vários momentos. Mesmo assim, cheguei ao top 10, e a pergunta que me fizeram foi ‘a palavra que me definia’. Numa turbulência de memórias em minha mente, sem muitas forças, mas firme, respondi ‘RESISTÊNCIA’, e não venci o concurso. Porém, tive a oportunidade de conversar e conhecer um pouco mais da Raissa Santana, mulher também negra que não apenas venceu aquele dia o Miss Paraná 2016, como com toda sua beleza e simpatia, quebrou todas correntes que, por mais de trinta anos, estavam impedindo uma negra de representar a beleza do nosso povo. Finalmente, ela tomou posse, e posso dizer que fiz parte desse momento histórico em nosso País! No ano seguinte, passei minha coroa de Miss Pinhais para a próxima miss com muita leveza, e com a sensação de dever cumprido! Pude evoluir muito como pessoa, e profissionalmente. Hoje, posso dizer que a palavra que me define continua sendo resistência. Resisto diariamente a uma indústria que exclui, a uma sociedade racista, a intolerância, a falta de oportunidade, e resisto apenas por ser mulher negra periférica. Hoje, levo no meu coração, todas experiências e vivências, e com muito respeito, olho para trás e sou grata a todos que viveram nessa terra, lutaram, derramaram sangue, foram mortos, para que hoje eu pudesse viver, e ter um pouco de liberdade para continuar lutando para simplesmente existir em paz, com direitos, justiça, liberdade, educação, igualdade e respeito. Moda, para mim, diz muito sobre essência, sobre tudo que você acredita em relação à sociedade, música, cultura, alimentação, religião, e o ato de vestir-se para si mesma, se amar, se sentir bela e plena, estar segura do que consome e transpassa. Isso não é dissociável dessa movimentação que vem gerando resultados expressivos no mundo. Há oito meses, eu renasci quando dei a luz e fui contemplada com a benção de tudo que é mais sagrado, meu filho Don Lion, a maior e mais importante experiência da minha vida! Hoje, entendo a vida com um misto de simplicidade, profundidade, responsabilidade, com compromisso de ser a melhor mulher e mãe que meu filho possa ter! Hoje meu objetivo, é mostrar ao próximo que ser diferente e único é tão simples como se aceitar.”

 

Luciana Tavares por Mariana Quintana para a Ov em 2018

 

 

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