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Sobre ser lésbica

Nessa semana, em homenagem ao dia Nacional da Visibilidade Lésbica comemorado em 29 de agosto, convidamos a Suelen e a namorada dela, a Letícia, pra contar sobre a vivência delas pro Blog da Ov!

 

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Fala um pouco sobre vocês e a sua história? 🙂

Eu me relacionei a vida inteira com homens, mas desde criança tinha alguns sentimentos em relação a mulheres. Quando tinha 8/9 anos, gostava de brincar de casinha e de sempre ser o homem da brincadeira. Nunca me identifiquei com ser um homem, mas no meu inconsciente eu achava que pra estar com uma mulher era o que eu tinha que ser.

Eu tive uma adolescência muito difícil em relação à sexualidade, acabei me abusando em muitos momentos em que tinha relações com homem porque me sentia obrigada a fazer aquilo. Era como se eu precisasse ter essas relações pra não viver o que eu realmente era, e me coloquei em muitas situações de risco. Eu vim de um contexto em que era um absurdo uma menina ficar com outra, qualquer tipo de relação assim era repreendida e até amigos meus, que hoje são gays e lésbicas, julgavam na época do colégio.

As coisas foram melhorando quando eu já estava na faculdade e comecei a me envolver com algumas pessoas que eram mais liberais. Fiz amigas bis e lésbicas, e foi quando eu pude ter acesso a esse universo e comecei a ficar com meninas. Eu sempre usava a desculpa de estar bêbada porque não tinha coragem, e no último ano de faculdade eu saí do último relacionamento que tive com um homem.

Resolvi começar a pensar em mim e entrei pra um grupo de dança, o BDNT. Lá, tive contato com outras meninas que estavam na mesma situação, e comecei a me reconhecer como mulher negra e dar de cara com a minha sexualidade. Pensei “Eu sou assim e é isso aí, não tem o que fazer e vou começar a viver isso”, mas minha primeira experiência não foi boa e me fez pensar que aquilo não era pra mim. Eu tinha muita dificuldade em chegar em mulheres e não sabia se eu tinha “cara de hétero” ou se o que acontecia comigo era alguma questão de racismo que acontece também dentro do movimento LGBT.

Queria ficar com mais mulheres para experimentar e sentir isso sóbria, então uma amiga me incentivou a baixar o Tinder. A Letícia conversou comigo, a gente se gostou, saímos e aconteceu de maneira muito natural. Hoje já faz um ano e meio e moramos junta. Me defino como lésbica, mas tive que viver uma heterossexualidade muito obrigatória pra conseguir chegar em quem eu sou hoje.

Eu tinha esse medo do que iria acontecer se eu me apaixonasse e quando aconteceu eu não quis esconder: queria viver todas as coisas que qualquer outro casal pode, como andar de mãos dadas, dormir na casa uma da outra, sair pra viajar. Venho do interior e de cidade pequena, mesmo assim minha avó disse que me amava e me aceitava do jeito que eu sou, assim como o resto da minha família, que incluem a Letícia na vida deles também. Já amigos que sempre souberam da minha sexualidade tiveram dificuldade em aceitar meu relacionamento sério pelos estigmas que eles conheciam por trás dos relacionamentos lésbicos: vai e volta, traições. Tive que me afastar de alguns, mas não perdi nenhum amigo.

 

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A identificação da Letícia como lésbica começou com cerca de 12 anos, com a puberdade, quando ela viu que as meninas a interessavam muito mais que os meninos. Sentia coisas pelas meninas que não sentia pelos meninos, mas não sabia explicar como aquilo que sentia era diferente de uma afetividade de amizade. Pra ela, era incabível, principalmente por não perceber socialmente as mulheres lésbicas na cidade de interior em que morava. As únicas lésbicas que ela conhecia eram mulheres que considerava muito estereotipadas, de forma que não se sentia representada pra se entregar e integrar aquilo.

A mãe dela descobriu lendo conversas com outra menina e aquilo foi um grande conflito na família, mas quem ajudou foram psicólogas que deram apoio e disseram que a mãe dela é que precisaria de tempo pra aceitar. Ela se sentia errada e deslocada, e quando começou a aceitar a própria condição, a família passou a aceitar mais facilmente. A independência emocional veio também com a independência financeira. Quando nos conhecemos, ela já tinha tido relacionamentos lésbicos e estava na vibração de não querer esconder quem ela era. Os pais da Letícia sonhavam que ela fosse heterossexual e tivesse uma vida “normal”, um receio que se dá pelo fato das lésbicas serem sim marginalizadas e pelo fato de não existirem modelos de mulheres lésbicas bem-sucedidas. Hoje, ela sabe que, genuinamente, a intenção deles era a de evitar um sofrimento, mas talvez eles não tivessem a dimensão de que reprimir a sexualidade ou quem ela era faz sofrer muito mais.

Ela se identificou quando percebeu que morar numa cidade maior significava ser menos desaprovada e que ser lésbica não significava não ser feminina. Que sendo um modelo, poderia ainda ajudar outras mulheres a se libertarem. Mesmo assim, sofreu muito em um relacionamento abusivo com outra mulher, em que era obrigada a se masculinizar. Foi se desconstruindo e percebendo que era possível ser ela mesma, principalmente quando entrou em contato com o feminismo e compreendeu outras maneiras de ser lésbica. Hoje estamos num relacionamento equilibrado onde não são impostas atitudes de heteronormatividade, nem repetições de padrões que sempre nos colocaram em caixinhas e situações de sofrimento.

 

Como você definiria ser lésbica hoje no Brasil?

Não só no Brasil, mas no mundo inteiro é muito difícil, porque tem a questão da objetificação, da sexualização; A lésbica ainda é vista como objeto sexual para o homem. É só a gente pensar em filmes pornôs com duas mulheres, nos quais elas fazem muitas coisas que não acontecem na prática e que são visivelmente pra agradar ao homem, e isso é muito triste. A homofobia também é muito presente, a gente não pode andar de mãos dadas o tempo inteiro porque em alguns lugares as pessoas ficam horrorizadas, tiram as crianças de perto.  Tem uma camada da sociedade que abomina real oficial o que nós somos. A gente não se sente segura, sofremos perseguição no antigo prédio em que a Letícia morava, e professores já disseram que ela não seria uma boa psicóloga por ser lésbica, ou que ninguém poderia ficar sabendo pra ela não poder ter pacientes. Candidatos falam sobre a influência LGBT na escola de uma forma muito triste, a gente conquistou tantas coisas e agora parece que estamos regredindo.

 

Quais são, hoje, os preconceitos que ainda atrapalham a transparência da lésbica com sua própria sexualidade?

Acho que um preconceito que nós lésbicas podemos reproduzir com nós mesmas é a questão de a gente se sentir obrigada a reproduzir uma heteronormatividade que é bastante ilusória. Vejo casais de lésbicas em que uma tenta ser o homem da relação e a outra mulher, o que as vezes reprime o que ela mesma é e o que ela sente. É importante se permitir estar com uma mulher sendo uma mulher e assumindo características não que ela acha que são corretas, mas que ela realmente se sinta bem tendo. A gente tenta se colocar em lugares pra ser aceita mas que no fundo vão contra tudo o que a gente é, até mesmo na religião. A falta de conhecimento ou por não estar no ponto de conseguir se assumir, são sentimentos que podem levar a pessoa a ter relacionamentos escondidos.

 

Você se sente representada? Pela publicidade, pela política, etc?

Nós não nos sentimos representadas. Eu acho que tem mais representatividade para gays do que para as lésbicas na questão de personagens, filmes, séries, e mesmo quando se pensa em orgulho LGBT sempre se referem a gays. Isso é fruto do machismo. A gente não tem exemplos de lésbicas que alcançaram lugares muito altos ou lésbicas na política. Eu conheço só uma mulher candidata em Curitiba que é bi. Também é difícil achar um preservativo para mulher, não tem no posto de saúde, não tem na farmácia e se você encontra é muito caro. Não tem um preservativo para língua, não tem preservativo para dedos, você tem que usar algo feito pro homem. Quando você vai fazer o teste de HIV e você diz que é lésbica eles não fazem, como se a gente não tivesse risco de ter DST. Existem ações de saúde para gays, mas não pra lésbicas. Não tem campanha, ninguém fala sobre isso. É como se a gente não existisse.

 

Deixaria algum recado para outras lésbicas que passam por alguns medos e inseguranças sobre elas mesmas?

Não se frustre, porque você vai se relacionar com outra pessoa, e pode dar certo ou não, mas todo mundo vai encontrar alguém com quem consiga construir uma relação saudável. O mais importante é que, pra isso, você esteja saudável. O caminho que a Letícia percorreu como mulher lésbica foi procurar ajuda psicológica. Um profissional vai compreender as suas questões e vai conseguir fazer com que você se fortaleça e veja que não tem nada de errado com você. Quando a gente se descobre gay ou lésbica, a primeira coisa que vem na cabeça é “porque eu não sou normal?”. Por isso, é importante mostrar que não tem nada de errado, você não precisa se sentir promíscuo ou maluco, mas acolhido. É importante que seja alguém falando de gays para gays e lésbicas para lésbicas, e caso você não tenha condições, procure ajuda em ONGS e em lugares que dão auxílio psicológico gratuito. Não tenha medo de levantar a bandeira, criar coragem e lutar pra ser quem você é, por mais difícil que seja. É doído e é sofrido, mas também é muito gratificante e bem melhor do que viver escondido.

 

Suelen tem 24 anos e é designer de moda e especialista em cultura afro-brasiliera (moda afro, feminismo negro e relações raciais da mulher negra). Letícia tem 26 e é psicóloga e psicodramatista que atua como psicóloga focada na saúde da mulher, além de pós graduanda em sagrado feminino.

 

Foto: Suelen Matos por Mari Quintana

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